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A história das relíquias de Santa Catarina de Alexandria em Florianópolis não terminou com a viagem ao Sinai, com sua chegada ao Brasil ou com a inauguração da Capela Ecumênica. Mais de vinte e cinco anos depois daqueles acontecimentos, a presença das relíquias continua a reunir fé, memória histórica, vida eclesial e responsabilidade institucional.
Ao longo desse período, elas permaneceram ligadas à veneração de Santa Catarina, à Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau, à Comunidade Helênica de Florianópolis e à Capela Ecumênica do Tribunal de Justiça. Sua presença passou também a integrar a memória religiosa e institucional catarinense.
A continuidade dessa história pode ser percebida de maneira particularmente expressiva nas celebrações da festa de Santa Catarina. Por ocasião de sua memória, as relíquias são conduzidas para celebrações no centro de Florianópolis, acolhidas na Catedral Metropolitana e levadas em procissão pública.
A Igreja Ortodoxa participa desses acontecimentos com seus hierarcas e seu clero. Com raras exceções, as celebrações têm contado com a presença do Arcebispo Metropolitano de Buenos Aires e América do Sul; quando impossibilitado de estar presente, o Metropolita confia essa representação a seu Bispo Auxiliar.
Essa continuidade eclesial é importante. As relíquias não são apenas testemunhos de um acontecimento ocorrido no ano 2000. Permanecem inseridas na oração e na veneração cristã, justamente a finalidade religiosa que acompanhou sua concessão pelo Monastério do Sinai.
Em 16 de abril de 2026, um novo capítulo dessa história foi aberto. Representantes da Igreja Ortodoxa Grega e da Comunidade Helênica de Santa Catarina foram recebidos pela Presidência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Participaram do encontro, pelo Tribunal, o presidente, Desembargador Rubens Schulz, e o terceiro vice-presidente, Desembargador Márcio Rocha Cardoso. Pela comitiva eclesial e comunitária estiveram presentes Dom Irineo de Tropaion, Monsenhor André, Reitor da Igreja São Nicolau, Dr. Andréas Evangelos Karabalis, Presidente da Associação Helênica de Santa Catarina, e Henrique Verçoza, Vice-Presidente da Associação.
O encontro transcorreu em clima de cordialidade e diálogo construtivo e reafirmou a importância histórica, espiritual e cultural das relíquias para Santa Catarina.
Mais do que recordar o passado, esse encontro recolocou em evidência uma história que envolve instituições diferentes, unidas por responsabilidades que se formaram ao longo do processo iniciado em 2000.
Conhecer essa história em sua inteireza significa preservar não somente a memória da viagem de Monsenhor Angelos ao Sinai ou da chegada das relíquias a Florianópolis, mas também as circunstâncias e as condições sob as quais sua concessão se tornou possível.
Os documentos já identificados mostram que o Monastério do Sinai manifestou preocupação explícita com o destino religioso da relíquia, sua guarda, sua segurança e seu acesso à veneração pública. Registram também a exigência de um Documento de Responsabilidade da Igreja e da Comunidade Helênica de Florianópolis.
Da mesma forma, a documentação registra diferentes dimensões de uma mesma história: o pedido oficial do Governo do Estado; o credenciamento de Monsenhor Angelos para recebê-la; sua concessão pelo Monastério; sua finalidade como bênção para a Igreja Ortodoxa local e para os cristãos de Santa Catarina; e o Certificado de Autenticidade que registra a entrega ao sacerdote para veneração em uma igreja ortodoxa de Florianópolis.
Preservar essa memória significa, portanto, preservar também os documentos que permitem compreendê-la.
Algumas questões permanecem abertas.
É necessário localizar, sempre que possível, os documentos originais relacionados às condições assumidas em 2000, especialmente o Documento de Responsabilidade da Igreja e da Comunidade Helênica de Florianópolis. Será igualmente importante reunir e organizar os certificados, correspondências e demais registros relacionados à concessão das relíquias, à sua destinação e às condições estabelecidas para sua guarda e veneração. Esse aprofundamento documental permitirá conhecer com maior precisão as responsabilidades assumidas pelas instituições que participaram dessa história e preservar, para o futuro, a memória das circunstâncias em que as relíquias de Santa Catarina chegaram a Florianópolis.
O trabalho de reunião e organização dessas fontes deverá resultar também em um livro dedicado à história de Santa Catarina de Alexandria e de suas relíquias em Florianópolis. A publicação, atualmente em preparação, permitirá apresentar de maneira mais ampla a documentação relacionada à vinda das relíquias do Monte Sinai, reunindo correspondências, certificados, registros históricos e fotográficos e outros testemunhos desse percurso.
Mais do que reproduzir o conteúdo destas páginas, o livro pretende preservar e organizar as fontes dessa história, oferecendo espaço para que os próprios documentos sejam conhecidos e para que as circunstâncias da concessão das relíquias, sua chegada a Florianópolis e as responsabilidades então assumidas possam ser apresentadas com maior amplitude.
O encontro realizado em 2026 oferece uma oportunidade para que essa história continue sendo construída por meio do diálogo. Igreja Ortodoxa, Comunidade Helênica e Tribunal de Justiça são hoje herdeiros, em diferentes dimensões, de acontecimentos iniciados por pessoas e instituições que, há mais de duas décadas, tornaram possível a vinda das relíquias do Sinai para Florianópolis.
Cabe às gerações atuais conservar aquilo que lhes foi transmitido, aprofundar o conhecimento de sua história e assegurar que as relíquias continuem cercadas pelo respeito, pela segurança e pela possibilidade de veneração que estiveram presentes nas preocupações manifestadas desde sua concessão.
Não se trata apenas de preservar um patrimônio do passado. Trata-se de manter viva a finalidade para a qual esse patrimônio foi confiado à comunidade cristã.
Em Alexandria, a tradição cristã situa a vida e o martírio de Santa Catarina. No Monte Sinai, suas relíquias são conservadas e veneradas há séculos. Em Florianópolis, uma parte dessa história encontrou nova expressão por meio de uma iniciativa que reuniu Igreja, comunidade e instituições públicas.
O próprio conjunto documental confere a essa presença uma identidade histórica definida: o pedido oficial do Governo do Estado, a concessão formal do Monastério do Sinai, a entrega ao representante eclesial ortodoxo em Florianópolis e o posterior reconhecimento institucional catarinense.
Mais de vinte e cinco anos depois, essa história permanece aberta.
Preservá-la significa conservar as relíquias, honrar as condições de sua concessão, guardar sua documentação e assegurar que aquilo que chegou do Sinai como bênção continue servindo à fé, à veneração e à fraternidade cristã. E esta é, certamente, a melhor maneira de compreender o caminho percorrido: do Sinai a Florianópolis, a história das relíquias de Santa Catarina não pertence somente à memória. Ela continua a exigir cuidado, responsabilidade e fidelidade no presente.