Documentos e cronologia

Os registros de uma história

A presença das relíquias de Santa Catarina de Alexandria em Florianópolis é sustentada por uma sequência de registros civis e eclesiásticos produzidos entre 2000 e 2001. Considerados em ordem cronológica, esses documentos permitem acompanhar o percurso desde a iniciativa catarinense até a concessão pelo Monastério do Sinai, a emissão do Certificado de Autenticidade e sua posterior presença na Capela Ecumênica.

Mais do que recordar datas, esta cronologia procura distinguir aquilo que cada documento efetivamente registra.


29 de maio de 2000 — O encontro em Florianópolis

O governador Esperidião Amin Helou Filho recebe uma comitiva da Igreja Ortodoxa Grega, liderada pelo então Metropolita Gennadios, Arcebispo de Buenos Aires e América do Sul.

Durante o encontro surge a possibilidade de solicitar ao Monastério de Santa Catarina, no Sinai, uma relíquia da Padroeira do Estado. O Metropolita orienta que o pedido seja formalizado, e Monsenhor Angelos Kontaxis, Reitor da Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau, assume a coordenação dos contatos.

O que este registro estabelece: o contexto em que nasceu a iniciativa e a participação da Igreja Ortodoxa desde sua origem.


13 de junho de 2000 — O pedido oficial do Governo do Estado

O governador Esperidião Amin formaliza a iniciativa por correspondência oficial.

O documento solicita apoio para a obtenção de “uma pequena parte das relíquias dos restos mortais de Santa Catarina”, destinada à veneração em solo catarinense.

O que este documento estabelece: a existência de um pedido formal do Governo do Estado de Santa Catarina para obtenção da relíquia.


8 de setembro de 2000 — A recomendação eclesiástica

Monsenhor Nektários Selalmazidis, então Vigário Geral no Brasil, encaminha correspondência ao Monastério de Santa Catarina do Sinai recomendando a missão do Pe. Angelos Kontaxis e manifestando apoio às tratativas relativas à relíquia da Santa Megalomártir.

O que este documento estabelece: a continuidade da mediação eclesiástica ortodoxa junto ao Sinai e o reconhecimento da missão confiada a Monsenhor Angelos.


25 de setembro de 2000 — As tratativas avançam

Em nova correspondência, o governador agradece as providências que vinham sendo adotadas para o translado da relíquia a Florianópolis e menciona a colaboração do Arcebispado do Monte Sinai.

O que este documento estabelece: nessa data, o processo já havia avançado das manifestações iniciais para providências concretas destinadas à vinda da relíquia.


3 de outubro de 2000 — O credenciamento de Monsenhor Angelos

O governador dirige novo ofício ao Arcebispo Damianos, do Monastério de Santa Catarina do Sinai, credenciando Monsenhor Angelos G. Kontaxis para receber oficialmente a santa relíquia em nome do Estado de Santa Catarina.

Este documento merece especial atenção porque identifica formalmente quem representava o Estado na missão de recebimento.

O que este documento estabelece: Monsenhor Angelos, sacerdote e Reitor da Igreja São Nicolau, recebeu também credenciais civis para representar oficialmente o Estado de Santa Catarina nesse ato.


Outubro de 2000 — As condições apresentadas no Sinai

Durante a missão, os monges recusam a proposta de um memorial e também a possibilidade de instalação da relíquia no Palácio do Governo.

O Arcebispo Damianos condiciona sua concessão à existência de uma capela ecumênica. O relato registra ainda como condições:

  1. a construção de uma capela com o nome da Padroeira;
  2. a assinatura de um “DOCUMENTO DE RESPONSABILIDADE DA IGREJA E DA COMUNIDADE HELÊNICA DE FLORIANÓPOLIS”;
  3. medidas adequadas de guarda, segurança e acesso ao público.

O que este registro estabelece: a concessão não foi tratada como transferência incondicionada; foi acompanhada de exigências relacionadas à finalidade religiosa, à responsabilidade, à guarda e ao acesso à relíquia.

Documento de particular importância: entre as condições estabelecidas encontra-se a assinatura do “DOCUMENTO DE RESPONSABILIDADE DA IGREJA E DA COMUNIDADE HELÊNICA DE FLORIANÓPOLIS”. Seu conteúdo integral ainda precisa ser localizado e reunido aos demais registros desse processo.


16 de outubro de 2000 — A concessão pelo Monastério do Sinai

O Arcebispo Damianos comunica formalmente que o pedido foi atendido.

O documento registra a concessão de um fragmento das relíquias de Santa Catarina de Alexandria:

  • para bênção espiritual da Igreja Ortodoxa local;
  • para benefício dos cristãos do Estado;
  • como gesto fraterno dirigido ao Brasil e à América do Sul.

O que este documento estabelece: a concessão pelo Sinai e a finalidade espiritual e eclesial expressamente atribuída ao gesto: como bênção espiritual para a Igreja Ortodoxa local, para benefício dos cristãos do Estado e como gesto fraterno dirigido ao Brasil e à América do Sul.


22 de outubro de 2000 — O retorno torna-se notícia pública

O Diário Catarinense noticia o retorno de Monsenhor Angelos e registra a chegada das relíquias provenientes do Monastério de Santa Catarina. O periódico menciona também a recepção do sacerdote por um grupo de cristãos ortodoxos no Aeroporto Internacional Hercílio Luz.

O que este registro estabelece: constitui testemunho contemporâneo à chegada da relíquia a Florianópolis e à participação da comunidade ortodoxa em sua recepção.


27 de outubro de 2000 — Apresentação ao governador

Monsenhor Angelos apresenta-se ao governador Esperidião Amin no Palácio Santa Catarina. O encontro é seguido pela cerimônia realizada na Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau, com a participação de autoridades civis e do então presidente do Tribunal de Justiça.

É nesse contexto que se estabelece a participação do Poder Judiciário na etapa seguinte da história: a destinação de um espaço religioso para acolher a relíquia.


20 de novembro de 2000 — O agradecimento oficial

O governador Esperidião Amin dirige correspondência ao Arcebispo Damianos agradecendo a concessão da relíquia da “venerada Padroeira do nosso Estado” e a acolhida oferecida a Monsenhor Angelos durante sua missão.

O que este documento estabelece: o Governo do Estado reconhece formalmente que a concessão pelo Monastério havia sido efetivada e agradece tanto o gesto quanto a recepção de seu representante.


Início de 2001 — O Certificado de Autenticidade

O Monastério de Santa Catarina do Sinai emite um Certificado de Autenticidade.

Segundo o registro, o certificado declara que, em outubro de 2000, uma pequena relíquia da Santa Grande Mártir Catarina havia sido entregue ao Reverendo Padre Angelos Kontaxis:

  • para veneração em uma igreja ortodoxa na cidade de Florianópolis;
  • em atenção ao pedido do Governador do Estado;
  • como bênção aos cristãos de Santa Catarina, do Brasil e da América do Sul.

Posteriormente, o certificado foi encaminhado à Presidência do Tribunal de Justiça.

O que este documento estabelece: identifica o sacerdote que recebeu a relíquia, reconhece o pedido governamental e registra expressamente uma destinação eclesial para sua veneração.

Este documento deve ser lido juntamente com o ofício de 3 de outubro de 2000 e com a comunicação de 16 de outubro: os três registram dimensões diferentes e complementares do mesmo processo.


5 de novembro de 2001 — Regulamentação da Capela Ecumênica

A Presidência do Tribunal de Justiça regulamenta o uso da Capela Ecumênica Santa Catarina de Alexandria por meio da Resolução GP n. 46/2001.

O que este documento estabelece: a institucionalização, no âmbito do Poder Judiciário, do espaço religioso que passaria a estar associado à guarda e veneração da relíquia.


23 de novembro de 2001 — A Capela e a recepção da relíquia

A Capela Ecumênica Santa Catarina de Alexandria é inaugurada no contexto das celebrações da Padroeira. Naquela ocasião ocorre também a recepção da relíquia no novo espaço.

Os registros institucionais identificam o altar lateral direito da Capela como o lugar destinado à relíquia.

Há versões distintas, em fontes do próprio Tribunal de Justiça, acerca do momento em que essa destinação foi definida: uma delas apresenta a Capela como construída para abrigar a relíquia; outra, posterior, recorda que sua construção já estava em andamento quando surgiu a necessidade de encontrar um espaço adequado para recebê-la. Essa diferença diz respeito à história da construção e da destinação da Capela e poderá ser esclarecida pelo exame dos registros administrativos da época.

O que estes registros estabelecem: em novembro de 2001, a Capela Ecumênica já se encontrava institucionalmente vinculada à guarda e à veneração da relíquia.


O que a sequência documental permite afirmar

Quando esses registros são colocados lado a lado, alguns fatos aparecem com particular clareza:

  • o pedido foi formalmente apresentado pelo Governo do Estado de Santa Catarina;
  • a Igreja Ortodoxa participou do processo desde sua origem e realizou a mediação eclesiástica necessária junto ao Sinai;
  • Monsenhor Angelos Kontaxis foi oficialmente credenciado pelo Estado para receber a relíquia;
  • o Monastério estabeleceu condições para sua concessão, incluindo responsabilidade da Igreja e da Comunidade Helênica de Florianópolis, guarda, segurança, acesso público e uma capela ecumênica;
  • a concessão foi expressamente relacionada à Igreja Ortodoxa local, aos cristãos de Santa Catarina, ao Brasil e à América do Sul;
  • o Certificado de Autenticidade registra a entrega a Monsenhor Angelos para veneração em uma igreja ortodoxa de Florianópolis;
  • posteriormente, a Capela Ecumênica do Tribunal de Justiça passou a integrar institucionalmente a história da guarda e veneração da relíquia.

A documentação, entretanto, não autoriza por si só uma conclusão definitiva sobre propriedade jurídica, posse permanente ou eventual transferência integral de responsabilidades entre as instituições envolvidas. Para responder a essas questões será necessário localizar e examinar especialmente o Documento de Responsabilidade da Igreja e da Comunidade Helênica de Florianópolis e, se existentes, os atos posteriores relacionados à destinação das relíquias, à sua guarda e às responsabilidades assumidas pelas instituições envolvidas.

Essa distinção é essencial. A sequência documental permite reconstruir com segurança o pedido, a mediação eclesiástica, a missão, a concessão e sua finalidade religiosa. O aprofundamento necessário diz respeito às condições e responsabilidades institucionais que acompanharam essa história e ao modo como foram posteriormente exercidas.

Uma história que prossegue

A cronologia não termina em 2001. As relíquias continuaram presentes na vida religiosa de Florianópolis, nas celebrações da Padroeira, na Igreja São Nicolau, na Capela Ecumênica e nos encontros realizados com outras comunidades cristãs.

Em 2026, essa história voltou a reunir representantes da Igreja Ortodoxa, da Comunidade Helênica e do Tribunal de Justiça.

Por isso, o último capítulo deste dossiê não será propriamente uma conclusão. Será a continuidade de uma história iniciada há mais de vinte e cinco anos.

Uma história que continua →