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No ano 2000, uma iniciativa surgida em Florianópolis estabeleceria uma nova ligação entre o Estado de Santa Catarina e o histórico Monastério de Santa Catarina, no Monte Sinai.
O que começou como o desejo de obter para o Estado uma recordação ligada à sua Padroeira transformou-se, por meio da atuação conjunta de autoridades públicas e da Igreja Ortodoxa, no pedido formal de uma relíquia de Santa Catarina de Alexandria.
Em 29 de maio de 2000, o governador Esperidião Amin Helou Filho recebeu no Palácio do Governo uma comitiva da Igreja Ortodoxa Grega, liderada pelo então Metropolita Gennadios, Arcebispo de Buenos Aires e América do Sul, que se encontrava em visita pastoral às comunidades de Santa Catarina.
A ideia inicialmente considerada pelo governador era obter algum objeto relacionado à Santa ou uma peça de caráter artístico ou cultural proveniente do Monastério do Sinai. Durante o encontro, porém, surgiu uma possibilidade de significado muito maior: solicitar ao Monastério uma relíquia de Santa Catarina. O Metropolita Gennadios dispôs-se a colaborar nas tratativas e orientou que o pedido fosse formalizado.
Monsenhor Angelos Kontaxis, então Reitor da Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau de Florianópolis, assumiu a coordenação dos contatos necessários.
Em 13 de junho de 2000, o governador Esperidião Amin formalizou o pedido. No documento, recordava os vínculos históricos entre o Estado e Santa Catarina de Alexandria e solicitava apoio para a obtenção de “uma pequena parte das relíquias dos restos mortais de Santa Catarina”, destinada à veneração em solo catarinense.
A partir daí, a iniciativa passou a percorrer também os caminhos eclesiásticos necessários para chegar ao Monastério do Sinai.
Em 8 de setembro, Monsenhor Nektários Selalmazidis, então Vigário Geral no Brasil, encaminhou correspondência ao Monastério de Santa Catarina, recomendando a missão do Pe. Angelos Kontaxis e manifestando apoio às tratativas referentes à relíquia da Santa Megalomártir.
Em 25 de setembro, nova correspondência do governador registrava as providências tomadas para o translado da relíquia a Florianópolis e a colaboração do Arcebispado do Monte Sinai. Poucos dias depois, em 3 de outubro, Monsenhor Angelos foi formalmente credenciado para receber a santa relíquia em nome do Estado de Santa Catarina.
No dia 12 de outubro de 2000, Monsenhor Angelos deixou Florianópolis com destino ao Egito. Partiu do Aeroporto Internacional Hercílio Luz para São Paulo e, de lá, seguiu para o Cairo, com escala em Frankfurt.
Levava consigo presentes e sinais da terra catarinense: uma imagem de Cristo esculpida em madeira por um artista de Treze Tílias, uma bandeira de Santa Catarina, mapas do Brasil e do Estado, além de outras lembranças destinadas à comunidade monástica. A Assessoria Internacional do Governo do Estado comunicou a missão à representação diplomática brasileira no Cairo, solicitando apoio durante sua permanência no Egito.
No dia 12 de outubro de 2000, Monsenhor Angelos deixou Florianópolis com destino ao Egito. No Aeroporto Hercílio Luz, foi acompanhado pelo Dr. Savas Pítsica e por Siríaco Diamantaras. Partiu para São Paulo e, de lá, seguiu para o Cairo, com escala em Frankfurt.
Na capital egípcia, Monsenhor Angelos foi recebido pela representação diplomática brasileira e prosseguiu viagem através da Península do Sinai até alcançar o Monastério.
O próprio sacerdote deixaria uma recordação particularmente expressiva de sua chegada. Depois da longa travessia pelo deserto, chegou ao Monastério após as 21h30. Encontrou as montanhas mergulhadas no silêncio da noite e registrou a profunda impressão espiritual que aquele primeiro encontro com o Sinai lhe causou. Na madrugada seguinte, às 4h30, foi chamado para participar da dos ofícios litúrgicos da comunidade monástica.
Após as orações, foi recebido pelo Arcebispo Damianos e pela comunidade. Entregou as doações e os presentes trazidos de Santa Catarina e explicou aos monges a localização do Estado brasileiro, as características de Florianópolis e as razões do pedido que o levara até o Sinai.
As tratativas no Sinai não se limitaram, entretanto, à simples entrega de uma relíquia.
Os monges manifestaram preocupações muito concretas sobre seu destino, sua guarda e as condições em que seria colocada à veneração pública. Foram estabelecidas condições para que a transferência pudesse ocorrer. Somente depois de atendidas essas exigências, decidiu-se conceder aos catarinenses um pequeno fragmento ósseo atribuído à costela de Santa Catarina.
Em documento datado de 16 de outubro de 2000, o Arcebispo Damianos comunicou formalmente que o pedido havia sido atendido. O Monastério concedia um fragmento das relíquias de Santa Catarina de Alexandria como bênção espiritual para a Igreja Ortodoxa local, para benefício dos cristãos do Estado e como gesto fraterno dirigido ao Brasil e à América do Sul.
As condições estabelecidas pelo Monastério são tão importantes para compreender o significado e a destinação da relíquia que serão examinadas separadamente no próximo capítulo deste dossiê.
Antes de deixar o Sinai, Monsenhor Angelos subiu ao Monte, associado pela tradição bíblica à entrega dos Mandamentos a Moisés. Depois retornou ao Cairo, onde a relíquia foi reverenciada pelo embaixador brasileiro Celso de Souza e acondicionada para a viagem ao Brasil.
Sua chegada a Florianópolis foi registrada pelo Diário Catarinense em 22 de outubro de 2000. No Aeroporto Internacional Hercílio Luz, um pequeno grupo de fiéis ortodoxos aguardava seu retorno.
Em 27 de outubro, Monsenhor Angelos apresentou-se ao governador Esperidião Amin no Palácio Santa Catarina. Seguiu-se também uma cerimônia na Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau, com a presença do governador, de sua mãe, D. Elza Amin, e do então presidente do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Desembargador Francisco Xavier Medeiros Vieira. Naquela ocasião foi anunciada a decisão do Poder Judiciário de construir uma capela destinada a receber a relíquia.
A viagem ao Sinai estava concluída. Começava, porém, outra etapa: como conservar, custodiar e tornar acessível à veneração aquilo que o Monastério havia confiado a Santa Catarina?
A resposta a essa pergunta encontra-se nas próprias condições estabelecidas no Sinai — condições fundamentais para compreender também a história posterior da relíquia.
A concessão das relíquias e suas condições →