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A Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau de Florianópolis não aparece apenas como participante circunstancial da história da chegada das relíquias de Santa Catarina de Alexandria. Sua relação com elas está presente desde as primeiras tratativas que conduziram ao pedido, atravessa a missão ao Monte Sinai e permanece registrada na documentação emitida pelo próprio Monastério.
Foi o então Reitor, Monsenhor Angelos Kontaxis, quem assumiu a coordenação dos contatos eclesiásticos e, posteriormente, viajou ao Egito para receber a relíquia. Em 3 de outubro de 2000, foi formalmente credenciado pelo governador Esperidião Amin para recebê-la em nome do Estado de Santa Catarina.
Mas a documentação do Sinai acrescenta a essa dimensão institucional uma indicação especificamente eclesial.
No início de 2001, o Monastério de Santa Catarina do Sinai emitiu um Certificado de Autenticidade referente à relíquia entregue a Monsenhor Angelos.
Segundo o registro disponível, o documento declara que, em outubro de 2000, uma pequena relíquia da Santa Grande Mártir Catarina havia sido entregue ao sacerdote:
Essa informação é de grande importância para a reconstrução histórica.
Ela demonstra que o pedido oficial do Governo e a finalidade eclesial da relíquia não aparecem na documentação como realidades excludentes. O próprio certificado reúne as duas dimensões: reconhece o pedido do governador e, simultaneamente, registra como destino de veneração uma igreja ortodoxa de Florianópolis.
O certificado foi posteriormente encaminhado à Presidência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
Essa indicação documental corresponde também ao papel efetivamente desempenhado pela Igreja São Nicolau. Foi a partir da comunidade ortodoxa de Florianópolis que Monsenhor Angelos coordenou os contatos necessários à missão. Foi como sacerdote ortodoxo que ele se apresentou ao Monastério e dialogou com sua comunidade monástica. E foi na Igreja São Nicolau que, depois do retorno do Sinai, ocorreu uma das cerimônias públicas mais importantes relacionadas à chegada da relíquia.
A presença da Igreja São Nicolau nessa história, portanto, não começa depois da construção da Capela Ecumênica. Ela é anterior e acompanha o processo desde sua origem.
Também por isso merece particular atenção a condição registrada durante as negociações no Sinai: a transferência dependeria da assinatura de um “DOCUMENTO DE RESPONSABILIDADE DA IGREJA E DA COMUNIDADE HELÊNICA DE FLORIANÓPOLIS”, além das garantias de guarda, segurança e acesso público.
Lido juntamente com o Certificado de Autenticidade de 2001, esse registro confirma a existência de uma relação formal entre a concessão da relíquia e a comunidade ortodoxa que participou de sua obtenção.
A posterior destinação de uma relíquia à Capela Ecumênica Santa Catarina de Alexandria, no Tribunal de Justiça, não rompeu a ligação das relíquias com a Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau e com a comunidade ortodoxa de Florianópolis.
As relíquias de Santa Catarina encontram-se presentes nos dois espaços. Na Igreja São Nicolau conserva-se uma relíquia da Santa, inserida na vida litúrgica e na veneração da comunidade. Na Capela Ecumênica encontram-se a relíquia conservada no relicário e uma partícula da Santa incrustada no ícone oferecido pelo Monastério do Sinai, além da pedra trazida do Monte Sinai por Monsenhor Angelos.
A presença das relíquias nesses dois lugares não constitui, portanto, histórias separadas. Ambas permanecem vinculadas à mesma relação espiritual e eclesial estabelecida entre Florianópolis e o Monastério de Santa Catarina do Sinai, iniciada com as tratativas que conduziram à missão de Monsenhor Angelos e prolongada, desde então, na veneração da Santa.
Essa ligação continuaria a manifestar-se ao longo dos anos nas celebrações de sua memória e na participação da Igreja Ortodoxa nos atos realizados em torno das relíquias.
A relação entre a Igreja Ortodoxa, as relíquias e a Capela Ecumênica não permaneceu circunscrita aos acontecimentos que marcaram sua chegada a Florianópolis. Ao longo dos anos, ela continuou a se expressar na vida eclesial e na veneração pública de Santa Catarina de Alexandria.
Por ocasião da festa da Santa, suas relíquias são conduzidas para celebrações no centro de Florianópolis, acolhidas na Catedral Metropolitana e levadas em procissão pelas ruas da cidade. Essa tradição tornou-se um significativo momento de encontro entre cristãos em torno da memória da Padroeira de Santa Catarina.
A Igreja Ortodoxa participa desses acontecimentos não apenas por meio de seu clero local. Com raras exceções, as celebrações têm contado com a presença do Arcebispo Metropolitano de Buenos Aires e América do Sul, acompanhado pelos sacerdotes da comunidade; quando impossibilitado de estar presente, o Metropolita confia essa representação a seu Bispo Auxiliar.
Essa presença episcopal dá continuidade, de maneira particularmente significativa, à participação da Igreja Ortodoxa na história das relíquias desde sua vinda do Sinai. Aquilo que começou com a mediação eclesiástica que tornou possível sua concessão permanece vivo na oração, na veneração e nas celebrações realizadas em torno da memória de Santa Catarina.
As relíquias não aparecem, assim, simplesmente como peças de um acervo institucional. Continuam inseridas na vida da Igreja e destinadas à veneração cristã, conforme a própria finalidade religiosa que acompanhou sua concessão.
Nesse contexto, a Igreja Ortodoxa conserva um papel próprio: seus hierarcas e sacerdotes participam da condução e veneração das relíquias e das celebrações ligadas à memória da Santa, em fraterna convivência com a Igreja Católica Romana, num testemunho ecumênico que aproxima as duas comunidades cristãs sem apagar a identidade e a tradição próprias de cada Igreja.
A trajetória das relíquias em Florianópolis não se deixa reduzir, portanto, a uma única instituição. O Governo do Estado formulou o pedido oficial. O Monastério do Sinai concedeu a relíquia. A Igreja Ortodoxa realizou a mediação e a missão que tornou possível sua vinda. A Igreja e a Comunidade Helênica de Florianópolis aparecem expressamente vinculadas às responsabilidades exigidas no Sinai. O Tribunal de Justiça passou a oferecer à relíquia um espaço institucional de guarda e veneração na Capela Ecumênica.
Esse conjunto de responsabilidades ajuda a compreender por que a documentação precisa ser considerada em seu conjunto.
Especialmente importantes são três elementos que já podemos colocar lado a lado:
Esses documentos não precisam ser forçados a dizer mais do que dizem. Considerados conjuntamente, porém, constituem a base documental para compreender a singular relação entre o Estado de Santa Catarina, a Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau e a relíquia proveniente do Monte Sinai.
É justamente aos documentos — apresentados agora em sua sequência temporal — que devemos recorrer para prosseguir esta história.
Documentos e cronologia →