Como vivemos a nossa fé

«Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós.» (Jo 15,4)

A fé ortodoxa não é apenas um conjunto de ensinamentos que aceitamos, nem uma tradição que preservamos exteriormente. É uma vida em Cristo, recebida na Igreja e conduzida pelo Espírito Santo. Vivê-la significa aprender, dia após dia, a permanecer em comunhão com Deus e permitir que sua graça transforme nossos pensamentos, escolhas, relacionamentos e ações.

O objetivo da vida cristã é a união com Deus, aquilo que a tradição ortodoxa chama de deificação ou theosis. Não significa que o ser humano deixe de ser criatura ou se torne Deus por natureza, mas que participe da vida divina pela graça, recuperando progressivamente a imagem e a semelhança segundo as quais foi criado.

Esse caminho começa no santo Batismo, é selado pela Crismação e alimentado continuamente pela divina Eucaristia. Desenvolve-se ao longo de toda a vida, por meio da oração, do arrependimento, do jejum, da caridade e da participação na comunidade eclesial.

Reunimo-nos como Igreja

A vida ortodoxa tem seu centro na Divina Liturgia. Aos domingos e dias festivos, deixamos nossas ocupações para nos reunirmos como Corpo de Cristo, escutar a Palavra de Deus, professar a mesma fé, oferecer ao Senhor os dons da criação e dar graças por tudo o que Ele realizou por nós.

Não comparecemos à Liturgia como espectadores ou indivíduos isolados. Celebramos juntos: cantamos, respondemos às orações, fazemos o sinal da Cruz, inclinamo-nos, escutamos e, estando devidamente preparados, aproximamo-nos do santo Cálice. Na Eucaristia, recebemos o Corpo e Sangue de Cristo e renovamos nossa comunhão com Deus e uns com os outros.

O domingo, portanto, não é apenas um compromisso religioso dentro de nossa agenda. É o dia em que toda a nossa vida volta a encontrar seu centro. Da Eucaristia recebemos força, sentido e direção para os demais dias da semana.

Santificamos toda a vida

A presença de Deus não está limitada ao interior do templo. Ele está presente e age em toda a criação e em cada momento de nossa existência. Nos santos Mistérios, essa presença manifesta-se de modo particular, oferecendo-nos cura, reconciliação, bênção e vida nova.

Pelo Batismo e pela Crismação somos incorporados a Cristo. Na Eucaristia somos alimentados por Ele. Na Confissão recebemos o perdão e recomeçamos nosso caminho. No Matrimônio, na Unção dos Enfermos e nos demais ofícios e bênçãos, apresentamos a Deus nossas alegrias, dores, responsabilidades e necessidades.

Assim, a Igreja acompanha e santifica a existência humana: o nascimento, a família, o trabalho, a enfermidade, as decisões, o sofrimento e a morte. Nada precisa permanecer afastado da presença amorosa de Deus.

Rezamos, jejuamos e recomeçamos

A oração comunitária prolonga-se na vida pessoal e familiar. O cristão ortodoxo procura começar e encerrar o dia diante de Deus, ler as Sagradas Escrituras, invocar o nome de Jesus e pedir a bênção divina sobre o alimento, o trabalho, os relacionamentos e as decisões.

Uma regra de oração não precisa ser inicialmente longa ou complicada. Deve ser sincera, constante e adequada à realidade de cada pessoa, preferencialmente com orientação do sacerdote. Mais importante do que multiplicar palavras é aprender a voltar o coração para Deus e a viver na consciência de sua presença.

O jejum também faz parte desse caminho. Ele não é simples mudança de alimentação nem exercício de força de vontade. Jejuamos para recuperar a liberdade interior, disciplinar os desejos, intensificar a oração e abrir espaço para a misericórdia. O verdadeiro jejum deve conduzir ao domínio de si, à reconciliação e à partilha com quem necessita.

Como ainda somos feridos pelo pecado, vivemos também em permanente arrependimento. Arrepender-se não significa permanecer aprisionado pela culpa, mas reconhecer aquilo que nos afasta de Deus e voltar-se novamente para Ele. Na Confissão, apresentamos com sinceridade nossas quedas, recebemos o perdão e somos fortalecidos para recomeçar.

Levamos a Liturgia para o mundo

Aquilo que celebramos no templo deve continuar em nossa vida. A fé manifesta-se na maneira como tratamos a família, exercemos o trabalho, utilizamos os bens materiais, cuidamos da criação e respondemos ao sofrimento do próximo.

Não podemos separar o amor a Deus do amor ao próximo. A oração que não produz misericórdia torna-se vazia; o jejum que não nos torna mais compassivos perde seu propósito; a participação na Eucaristia pede que reconheçamos em cada pessoa a imagem de Deus.

Viver a fé é permitir que Cristo esteja presente em nossos gestos mais cotidianos: numa palavra de reconciliação, numa visita, na atenção a quem está só, na ajuda oferecida discretamente, na honestidade do trabalho e na coragem de testemunhar o Evangelho.

A vida ortodoxa não se reduz, portanto, ao que fazemos no templo, mas também não pode existir sem a oração e a Liturgia da Igreja. Do altar recebemos Cristo e somos enviados ao mundo para levar sua paz, seu amor e sua misericórdia.

Vivemos nossa fé reunindo-nos para celebrar, aprendendo a rezar, recomeçando pelo arrependimento e colocando nossos dons a serviço de Deus e do próximo.

Caminhamos em comunidade

Ninguém vive a fé ortodoxa sozinho. Somos membros uns dos outros e crescemos dentro de uma comunidade concreta. Na paróquia, rezamos juntos, aprendemos a acolher, servimos conforme nossos dons e partilhamos as alegrias e dificuldades da vida.

Pertencer à Igreja é também assumir responsabilidade por sua missão. Cada pessoa recebeu de Deus dons que podem ser colocados a serviço dos demais: na oração, no canto, na catequese, na acolhida, no cuidado dos necessitados, na manutenção do templo ou em tantas outras formas de diaconia.

A comunidade não é formada por pessoas perfeitas, mas por homens e mulheres que necessitam da misericórdia de Deus e aprendem a caminhar juntos. Por isso, a vida eclesial exige paciência, humildade, perdão e disposição para carregar os fardos uns dos outros.

Referências

  1. BÍBLIA SAGRADA. Jo 15,4-5; At 2,42; Rm 6,3-11; 12,1-13; 1Cor 10,16-17; Gl 5,22-23; 2Pd 1,4.
  2. FITZGERALD, Thomas. The Meaning of Theosis as the Goal of Christian Life. Greek Orthodox Archdiocese of America.
  3. FITZGERALD, Thomas. Form and Characteristics of Orthodox Worship. Greek Orthodox Archdiocese of America.
  4. FITZGERALD, Thomas. The Meaning and Celebration of the Eucharist. Greek Orthodox Archdiocese of America.
  5. FITZGERALD, Thomas. The Meaning and Importance of Liturgical Life. Greek Orthodox Archdiocese of America.
  6. HARAKAS, Stanley S. Beginning with God. Greek Orthodox Archdiocese of America.
  7. HARAKAS, Stanley S. Living the Liturgy. Minneapolis: Light and Life Publishing.
  8. VAPORIS, N. Michael (org.). The Synekdemos: Daily Prayers for Orthodox Christians. Brookline: Holy Cross Orthodox Press.